Recolhas de “Plantas e Povos” de África dos séculos XIX e XX em exposição em Lisboa

20 Abr, 2017
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Autor:
Agência Lusa

Plantas e objetos recolhidos nos séculos XIX e XX, maioritariamente em África, e cujo uso foi apropriado pelos povos europeus, fazem parte da exposição “Plantas e Povos” que é inaugurada na quinta-feira em Lisboa.

“É uma forma de a ciência europeia tomar conhecimento do uso local e depois apropriar-se desse uso e dar outras utilizações ou as mesmas a estas plantas”, disse nesta quinta-feira, em declarações à Lusa, José Pedro Sousa Dias, diretor do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), onde a mostra vai estar patente.

Trata-se de uma exposição “de objetos que foram recolhidos em diferentes locais do globo, ilustrando o seu uso pelas populações locais, principalmente em África, mas também na Ásia e na América”. “A Europa deve muito aos povos que colonizou para ter estes objetos para diferentes usos: vestuário, saúde, alimentação, questões religiosas e também construção de instrumentos e barcos”, referiu.

A mostra foi dividida em três grandes núcleos: “Cuidar”, “Transcender” e “Transformar”.

No primeiro, estão expostas as espécies utilizadas para fins medicinais, cuidados estéticos, de higiene e alimentação, como a saboeira, utilizada na higiene pessoal, e a aloé vera, usada no tratamento de queimaduras, feridas e irritações da pele.

É neste núcleo que estão documentos, desenhos e plantas do botânico austríaco Friedrich Welwitsch que esteve em Angola, entre 1853 e 1860, pago por Portugal.

O núcleo “Transcender” reúne instrumentos de dois curandeiros moçambicanos, recolhidos naquele país nas décadas de 1930 e 1950, quando das suas detenções.

Trata-se de conjuntos “muito completos, pois incluem objetos de adorno de caráter simbólico, mas também ossículos divinatórios, um instrumento de benzeduras, um banco, recipientes e drogas para a preparação de mezinhas”.

No núcleo “Transformar” estão expostas matérias-primas utilizadas para a construção e a indústria, como a borracha usada nas bolas de ‘cauchu’, o algodão, as resinas ou o buxo, utilizado para construir flautas, gaitas de foles e cordofones.

“Plantas e Povos” reúne dois espólios: a coleção de etnobotânica que pertence ao herbário do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, mas também a coleção de etnobotânica que pertence ao herbário do antigo Instituto de Investigação Científica Tropical, que foi integrado na Universidade de Lisboa.

A exposição abre portas ao público na quinta-feira e não tem, para já, data de encerramento.

“Pensámos nesta exposição com um certo caráter evolutivo. No futuro podemos concentrar-nos em aspetos mais restritos e mais específicos e não ter esta preocupação tão enciclopédica como fizemos”, disse José Pedro Sousa Dias.

Assim, ao longo do tempo poderá ser “alterada a narrativa e os objetos, porque a coleção do MUHNAC é muito maior do que esta que está aqui”.