Morreu o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman

10 Jan, 2017
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Autor:
Agência Lusa

O sociólogo polaco Zygmunt Bauman morreu na segunda-feira, aos 91 anos, na cidade inglesa de Leeds. Era considerado um dos nomes-chave “para se entender o século XX” e criador do conceito da “modernidade líquida”.

O autor de “A sociedade sitiada” morreu “na sua casa de Leeds, junto à família”, anunciou a socióloga polaca Aleksandra Kania, antiga colaboradora de Bauman.

Zygmunt Bauman era professor jubilado na Universidade de Leeds, Inglaterra, onde deu aulas durante mais de 30 anos, construindo uma obra caraterizada por uma visão crítica da sociedade pós-moderna e globalizada.

Ao longo da carreira de escritor, que iniciou nos anos de 1950, desenvolveu os parâmetros de uma sociología crítica, abordando temas como as classes sociais, o socialismo, o Holocausto, a hermenêutica, a modernidade e a pós-modernidade, o consumismo e a globalização.

Reconhecido por uma abordagem que incorporou a filosofia e outras disciplinas, Zygmunt Bauman foi uma forte voz para os pobres, num mundo revoltado pela globalização, como destacam as agências internacionais de notícias.

“Viver com o tempo emprestado”, publicado em 2009, é o seu último livro, onde analisa o estado atual e os desafios que enfrenta o mundo globalizado, em que tudo – a natureza e o ser humano – se converteu em mercadoria.

As suas obras estão publicadas em Portugal pela Relógio d’Água, nomeadamente “Confiança e medo na cidade”, “Cegueira moral”, “Estado de crise” (com Carlo Bordoni), “A vida fragmentada”, assim como “A sociedade sitiada”, pelo Instituto Piaget.

Entre os seus livros destacam-se ainda “A modernidade líquida” (2004), “Amor líquido: acerca da fragilidade dos vínculos humanos” (2005), “Europa, uma aventura inacabada” (2006), “Ética pós-moderna” (2006), “Tempos líquidos” (2007), “Vida de consumo” (2007) e “Liberdade” (2008).

Zygmunt Bauman nasceu em Poznan, na Polónia, em 19 de novembro de 1925, no seio de uma família judia. Em 1939, com o início da II Guerra Mundial, mudou-se para a antiga União Soviética, em fuga às forças nazis de Hitler. Depois de se alistar no exército polaco, que se aliou à frente russa, acabou por regressar ao seu país, no final do conflito. Aí, iniciou o seu percurso como professor, lecionando Filosofia e Sociologia na Universidade de Varsóvia.

Em 1968, no decorrer duma purga anti-semita, Bauman e a esposa, Janina, perderam o trabalho na Polónia e partiram para o exílio, em Israel, onde o filósofo passou a lecionar na Universidade de Telavive. Refira-se que o polaco filiou-se no Partido Comunista aos 19 anos, ao qual esteve ligado até 1967. Durante três anos serviu no chamado “exército interno”, a força encarregada de “reprimir o terrorismo no interior do país”.

Acabaria por ser perseguido durante 15 anos, pelos serviços secretos polacos, tendo sido expulso da universidade e proibido de publicar.

Seguiu-se o ensino em universidades dos Estados Unidos e Canadá, antes de se fixar no Reino Unido, em 1971, acabando por entrar no corpo docente da Universidade de Leeds.

Quanto ao seu pensamento, a crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, dominam o último ensaio de Bauman, publicado no final de 2016, “Estranhos batendo à porta”, no qual analisa o impacto das atuais vagas migratórias.

Bauman culpa os políticos que se aproveitam dos medos dos “deserdados e dos pobres” e assegura que a política de construção de muros está destinada a fracassar a longo prazo.

Entre outras distinções, Bauman foi galardoado com o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais (1992), o prémio Theodor W. Adorno (1998) e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.