Mario Vargas Llosa e o fim da amizade com Gabriel García Márquez

8 Jul, 2017
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Mario Vargas Llosa rompeu recentemente o silêncio sobre o fim da sua amizade com Gabriel García Márquez, numa palestra sobre o escritor colombiano, na Universidade Complutense de Madrid.

A palestra organizada pela Cátedra Vargas Llosa, no âmbito da programação de verão da universidade espanhola, colocou à conversa o escritor Mário Vargas Llosa, Nobel da Literatura em 2010, com o ensaísta Carlos Granès. Durante uma hora de conversa, no Mosteiro de El Escorial (Madrid, Espanha), o escritor peruano falou sobre a vida e obra de Gabriel García Márquez e sobre a sua “estreita amizade e desencontros políticos e literários” com o Nobel da Literatura de 1982 – algo que não acontecia há vários anos.

Mario Vargas Llosa e García Márquez conheceram-se em Caracas, Venezuela, em 1967 – ano da publicação de “Cem Anos de Solidão -, quando o escritor peruano recebeu o prémio Rómulo Gallegos pelo seu livro “A Casa Verde” (1966). Pelo peso literário dos dois escritores, mas também pela mediática rutura, em 1976, da amizade de ambos – depois de anos de amizade, vizinhança e cumplicidade – esta foi uma notável conversa.

Vargas Llosa, autor de “García Márquez: historia de un deicídio” (não há edição portuguesa), um livro considerado o melhor já escrito sobre García Márquez, começou por caracterizar o escritor colombiano como alguém tímido e esquivo em público, mas divertido e eloquente em privado. O facto da amizade entre vargas Llosa e García Márquez, ou Gabo como os amigos o tratavam, ter sido tão profunda explica-se pelas vivências de ambos: os dois foram criados pelos avós maternos; tiveram relacionamentos difíceis com os respetivos pais; eram fãs do escritor norte-americano William Faulkner  – “era o nosso denominador comum”, explicou Llosa – e ambos eram à época,  dois latino-americanos a descobrir a Europa.

O grande interresse desta conversa surgiu quando Llosa foi questionado sobre o “Caso Padilla” – em 1971, na sequência da detenção por cerca de 40 dias do poeta cubano Heberto Padilla pelas autoridade cubanas, e posterior exílio nos EUA, recaiu sobre Mario Vargas Llosa a suspeita de ser um agente da CIA. O caso ficou conhecido internacionalmente por ter dividido, pela primeira vez, as opiniões dos grandes intelectuais da época, incluindo Llosa e Gabo, sobre Cuba. O escritor, que esteve em Portugal em outubro de 2016, evidenciou que foi Cuba e a revolução de 1959 que separou profundamente os dois gigantes da literatura latino-americana.

Vargas Llosa – sobre Cuba – revelou que quando conheceu Gabriel García Márquez, os papéis estavam trocados: “Eu estava muito entusiasmado com a revolução. García Márquez, muito pouco. Sempre foi discreto sobre isso, mas ele até já tinha saído do Partido Comunista quando trabalhava na Prensa Latina com o seu amigo Plinio Apuleyo”. “Não sei” – palavras de Llosa – o que aconteceu, entretanto, para que o escritor colombiano continuasse a apoiar a Revolução Cubana.

“Acho que tinha um sentido prático da vida e sabia que era melhor estar com Cuba do que contra Cuba. Assim livrou-se das reprovações que caíram sobre aqueles que eram críticos à evolução da revolução, desde as suas primeiras posições socialistas e liberais até ao comunismo”, argumentou.

A conversa teve um aspeto claramente político, mas não deixou a literatura de lado. “Fiquei deslumbrado”, disse sorridente o escritor peruano  sobre o que sentiu quando leu “Cem Anos de Solidão”. Para Llosa, Gabriel García Márquez – a par do mexicano Juan Rulfo e do cubano Alejo Carpentier – foi mestre a extrair beleza da “fealdade” e do “subdesenvolvimento” da América Latina.

No fim, e após uma hora de conversa, Granès perguntou se Llosa e Márquez voltaram a encontrar-se depois de 1976. “Não”, disse categoricamente o peruano, seguindo-se um irónico alerta : “Estamos a entrar em terreno perigoso. É hora de acabar com essa conversa.”

Gabriel García Márquez morreu em 2014, aos 87 anos. Sobre a sua morte, Llosa contou que recebeu-a “com pena” – “como a morte de Cortázar ou de Carlos Fuentes. Não eram apenas grandes escritores, também foram grandes amigos. Descobrir que sou o último dessa geração é triste”.

Mario Vargas Llosa é um dos símbolos do boom literário latino-americano, na segunda metade do século XX. Tem 81 anos e publicou o seu vigésimo livro de ficção – “Cinco Esquinas” – no final de 2016.