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Entrevista: O futuro do carro elétrico em Portugal

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Entre 2014 e 2016, a venda de veículos elétricos em Portugal quase quadruplicou. Para além das óbvias vantagens ambientais, estes veículos apresentam custos de manutenção significativamente mais baixos. No entanto, continuam a existir algumas questões a considerar, principalmente ao nível das baterias.

Apesar de todo o desenvolvimento conseguido até à data, a curta autonomia e o elevado tempo de carregamento das baterias são os grandes entraves na hora de decidir se vale a pena comprar, ou não, um veículo elétrico.

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Empresas como a Tesla tiveram, e continuam a ter, um papel fundamental na nova era dos veículos elétricos. O impressionante sucesso da companhia americana foi claramente responsável por acelerar a entrada de outros fabricantes de automóveis no segmento.

A própria Volvo anunciou recentemente que, a partir de 2019, todos os seus carros novos serão totalmente elétricos ou híbridos, um passo significativo nos esforços para ultrapassar o motor de combustão interna que aparece nos automóveis há mais de um século.

Mas serão os veículos elétricos uma aposta viável para os portugueses?

Em entrevista ao TechITT, Teresa Ponce de Leão, Presidente do Conselho de Administração da Associação Portuguesa do Veículo Elétrico em representação do LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia, explica as principais vantagens e desafios daquela que é considerada a próxima geração de veículos.


 

TechITT: Numa população conservadora como a portuguesa, sente que existe um interesse cada vez maior pelos carros elétricos?

TPL: Os números falam por si, a venda de veículos elétricos (VE) entre 2014 e 2016 quase quadruplicou sendo que o maior crescimento se verificou entre 2015 e 216. Os portugueses não são conservadores, antes pelo contrário, inovam desde o século XVI quando definiram uma estratégia para conquistar novos mundos.

 

TechITT: Tendo em conta a grande diferença de preços, compensa investir num automóvel elétrico em vez de num automóvel a gasolina/gasóleo?

TPL: Além das vantagens ambientais óbvias, os VEs apresentam custos de manutenção mais baixos. Em alguns segmentos, tipicamente extra-utilitários/citadinos, o TCO é equivalente ou inferior aos veículos de combustão interna (VCI).

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TechITT: A nível de infraestrutura e capacidade, a rede elétrica do país está preparada para receber grandes quantidades de carros elétricos? 

TPL:

A infraestrutura de carregadores necessita de ser atualizada e aumentada – o que segundo a “mobi.e” será feito durante os próximos meses.

Do lado da geração existe capacidade instalada para suprimir as necessidades de carregamentos dos VEs, cobrindo mesmo o caso extremo de conversão da totalidade do parque português de veículos. Mas esses carregamentos teriam de ser geridos de forma a não ocorrerem em simultâneo com as horas de ponta do consumo típico, para evitar constrangimentos na rede de distribuição. A instalação de postos de carga rápida poderá implicar algum reforço de rede no local.

 

TechITT: Sente que a autonomia das baterias e o seu tempo de carregamento continuam a ser o principal entrave à aquisição destes veículos? Ou existem outras questões?

TPL: Mais do que o tempo de carregamento, a autonomia tem sido um dos grandes desafios à adoção dos VEs. Contudo, estamos cada vez mais perto de superar este desafio, sendo evidente na oferta comercial atual o aumento constante da autonomia dos VEs, existindo já modelos com autonomias aceitáveis.

A par com a autonomia existe o preço das baterias, e consequentemente dos VEs. É outro desafio que os fabricantes têm vindo a responder de forma bastante clara através do desenvolvimento de novas tecnologias e de economias de escala que se vão estabelecendo.

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TechITT Num país importador de petróleo e com excelentes condições para as energias renováveis, é possível estimar quanto tempo irá levar até que o carro elétrico seja a regra e não a exceção?

TPL: Ninguém pode com certeza indicar uma data. Há diversos fenómenos em curso ao nível da mobilidade que não apenas a eletrificação do transporte; o aparecimento dos veículos autónomos, a crescente digitalização de questões tão simples como a assistência ou o estacionamento, as plataformas de transporte como Uber, Cabify, etc, o car sharing ou a simples orientação de tráfego (Waze, Google maps, etc) convergem para uma verdadeira alteração de paradigma neste setor.

Mais carros elétricos, mais carsharing, inteligência artificial na condução, assistência à condução humana, tudo isto começa a acontecer hoje e acreditamos que em cinco anos terá um papel de destaque. É difícil dizer quando se tornará dominante a mobilidade elétrica.

 

TechITT: Sente que a Tesla é hoje em dia a grande responsável pela cada vez maior divulgação e aceitação dos veículos elétricos? O que tem a dizer sobre o papel da marca no setor?

TPL: A Tesla teve (e tem) um papel fundamental nesta nova era dos VEs. Assumiram o papel de “attacker” e o seu sucesso foi responsável por acelerar a entrada de fabricantes de automóveis nos VEs.

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TechITT: Os incentivos fiscais do governo relativos à aquisição de veículos elétricos são suficientes? 

TPL: Acreditamos que os VEs têm sentido económico mesmo sem incentivos fiscais, no entanto, os incentivos são importantes para acelerar a adoção dos mesmos uma vez que proporcionam uma maior vantagem económica aos seus utilizadores. À medida que o preço dos VEs se aproximar do preço dos VCI, os incentivos estatais começam a ser menos importantes.

Nesta fase ainda são importantes, quer na aquisição dos VEs, quer no desenvolvimento da infraestrutura de carregamento. Importa ainda salientar que existe racionalidade económica na atribuição de incentivos fiscais aos VEs – para além dos benefícios ambientais, há um ganho económico direto pela substituição de importações de combustíveis fósseis por eletricidade gerada no país.

 

TechITT: Países como a Alemanha e a Dinamarca já revelaram intenção de parar a venda de carros com motor de combustão. Existe a possibilidade de Portugal seguir pelo mesmo caminho no futuro? O que implicaria tal decisão?

TPL: Não conhecemos qualquer indicação nesse sentido por enquanto. No entanto as boas práticas normalmente têm um efeito multiplicador. Lisboa candidatou-se a “cidade verde europeia”, ficou na shortlist e perdeu para Oslo, capital do país que tem objetivos nesse sentido e que pretende proibir a entrada de carros a combustão.

Talvez este critério menos bem avaliado venha a induzir alterações e quando sem carros a combustão Lisboa receba o galardão de cidade verde da Europa.

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