Condições socioeconómicas degradadas promovem aumento da Sida entre migrantes lusófonos

20 Abr, 2017
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Autor:
Agência Lusa

As condições socioeconómicas mais degradadas promovem a vulnerabilidade das comunidades migrantes em Portugal à infeção pelo vírus da Sida, e subsiste um “conjunto muito importante de pessoas que desconhecem o seu estatuto serológico”, segundo uma investigadora.

Sónia Dias, investigadora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), alertou em declarações à agência Lusa para o facto de “existir um conjunto muito importante de pessoas” entre a comunidade de migrantes residentes em Portugal, sobretudo migrantes provenientes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), que “desconhecem o seu estatuto serológico”.

A autora do trabalho “Migrantes Africanos e infeção VIH: estudo de prevalência e fatores associados”, que foi hoje apresentado no 4.º Congresso Nacional de Medicina Tropical em Lisboa, explicou à Lusa à margem do evento que, com frequência, os migrantes não realizam o teste para o VIH e como não conhecem esse estatuto não é depois possível fazer esse acompanhamento em termos dos tratamentos nos serviços de saúde e da melhoria da qualidade de vida.

“Esse dado mostra que ainda é necessário promover uma maior ligação destas comunidades aos serviços de saúde”, sustentou a investigadora.

O estudo, que aliou pela primeira vez um questionário e um teste sanguíneo rápido e cujos resultados foram divulgados no ano passado, foi realizado junto de um universo de 790 pessoas migrantes dos países dos PALOP, junto de comunidades específicas, socialmente desfavorecidas, e demonstrou uma prevalência de VIH/Sida de 5% nestes grupos específicos.

“A prevalência é de facto alta. Temos cerca de 5% de prevalência de VIH Sida nestes grupos específicos. Agora, esta prevalência não só não representa a totalidade dos migrantes a residir em Portugal – o estudo foi realizado no concelho de Lisboa e junto de grupos socialmente desfavorecidos, em que a exclusão social é muito grande – como mostra que, com políticas e estratégias de intervenção focadas e úteis àquelas pessoas especificamente, podemos ultrapassar esta situação”, sublinhou a investigadora.

Por outro lado, fez ainda questão de reforçar Sónia Dias, “os migrantes não são uma ameaça à população em geral, eles é que estão vulneráveis e sob ameaça e o que está em causa é encontrar-se as políticas de saúde adequadas à sua proteção”.

Essas estratégias, esclareceu ainda, passam crucialmente pela promoção e aumento da cobertura do teste para o VIH. “Devemos procurar que todas as pessoas portadoras de VIH conheçam o seu estatuto e possam aceder aos serviços de saúde”, disse.

“Continua a existir um grande estigma contra o VIH Sida na sociedade em geral – e nestas comunidades também verificámos isso –, que leva muitas vezes à recusa das pessoas em fazer o teste”, explica a investigadora.

Depois, “quando se identifica um caso VIH é preciso garantir que este caso é acompanhado nos serviços de saúde e tem o tratamento necessário”, no espírito dos objetivos da Nações Unidas para o combate à SIDA, que assentam no aumento do número de pessoas que conhecem o seu estatuto e no aumento do número de pessoas que se mantêm no tratamento.